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Banco de questões do Enem, que deveria ser atualizado todo ano, não recebe novos itens no governo Bolsonaro e está perto do fim

O Banco Nacional de Itens (BNI), que reúne questões testadas e aprovadas para entrarem nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), está acabando, alertam servidores do Inep, instituto responsável pela realização e aplicação da prova. Atualmente, segundo duas pessoas do Inep que participaram da elaboração das provas, não há questões disponíveis para o exame de 2022.

Desde o fim do governo Temer, o banco nunca recebeu novos itens, ao contrário do que ocorria todos os anos, em gestões anteriores. Essa falta de novas perguntas explica, por exemplo, por que não houve uma só questão ou texto citando a pandemia de Covid-19. Surgida em 2020, ela ainda não existia quando as últimas questões foram incluídas no banco, há três anos.

A estagnação também ajuda a explicar por que a influência do próprio Jair Bolsonaro sobre a prova é limitada, apesar da declaração do presidente de que o Enem estaria ficando “com a cara” do governo, na semana passada, durante viagem pelos países do Golfo Pérsico. De acordo com os servidores, já houve questões barradas. No entanto, quando elas são substituídas, precisam necessariamente ser trocadas por outras que estão no banco, produzido pelo corpo técnico do Inep ainda no governo passado.

Trocas constantes
O Inep já teve quatro presidentes durante o governo Bolsonaro. Além disso, outro posto chave, o comando da diretoria de Avaliação da Educação Básica, diretamente responsável pela elaboração da prova, também teve alta rotatividade, com seis diretores nesse período. O cargo também chegou a ficar quase cinco meses sem titular, em 2019.

— O governo Bolsonaro até agora ainda não se preocupou em fazer um pré-teste para o Enem, mesmo que os servidores tenham alertado todos os presidentes e os diretores de Avaliação Básica que apareceram — diz um servidor.

Em 2019, em vez de abrir o processo para preencher o banco, o governo decidiu criar uma comissão para inspecionar as questões do exame. De caráter consultivo, ela “desaconselhou” o uso de 66 questões na prova, sugeriu a troca do termo “ditadura” por “regime militar” em uma das perguntas barradas na área de Linguagens, Códigos e suas tecnologias. A presidência do Inep nunca esclareceu se seguiu as orientações da comissão.

— Podiam ter feito esse processo em 2020, camuflando o pré-teste, num processo de monitoramento das escolas, que toda a sociedade estava pedindo — sugeriu outro servidor.

Em 2020, o governo Bolsonaro lançou o primeiro edital para a escolha dos professores que montariam as novas questões. Eles foram chamados há dois meses para o curso de capacitação, que já foi concluído. No entanto, servidores do Inep afirmam que ainda não está claro se o processo está garantido com segurança, já que o prazo está apertado.

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Faltam ainda a produção dos itens, de revisão pedagógica e aprovação de uma junta formada por servidores técnicos do Inep de diferentes áreas do conhecimento. Só a partir disso os novos itens podem passar por um processo de pré-testagem — ou seja, que eles sejam aplicados a estudantes do final do ensino médio ou do 1º semestre da universidade. Nesse processo, os alunos não sabem que aquelas questões estão sendo preparadas para comporem a prova do Enem.

— Se não fizer essa aplicação em março, não tem item para o próximo Enem. Simples assim — disse o servidor. — Abril já seria difícil. A gente faz a aplicação, tem que coletar as informações, produzir as estatísticas, ir para o banco para que esses itens estejam aptos para eles serem selecionados.

Por: O Globo

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