“Sempre parece ter algum tipo de celebração no Brasil. Vocês fazem bastante festa por aqui”, disse Viola Davis, ao iniciar uma coletiva de imprensa no Rio de Janeiro à frente de jornalistas visivelmente animados, com celulares para o alto.
A atriz e produtora veio ao país para divulgar seu mais novo filme, “A Mulher Rei”, que estreia nesta quinta-feira, 22. Trata-se de um épico que conta a história real das guerreiras africanas Agojie, responsáveis por defender o Reino de Daomé (atual Benin) até o fim do século 19.
Ao lado de Viola, estava Julius Tennon que, além de produzir o filme, é marido da atriz.
“Esse filme demorou sete anos para ser produzido”, diz Julius. “Contar uma história sobre pessoas negras em Hollywood nunca é fácil, mas superamos todas as dificuldades”.
Além da coletiva de imprensa, Viola Davis fará a première desse filme em solo brasileiro, nesta terça-feira, 20, no Rio de Janeiro. Quando questionada sobre o porquê de ter escolhido o Brasil para um dos eventos mais importantes relacionados ao filme, Viola citou o período da escravidão no país.
“A primeira parada dos navios negreiros era aqui, mais de 12 milhões de africanos foram escravizados e trazidos para cá e depois espalhados para as outras colônias”, diz ela.
O Colonialismo, para Viola, criou uma ideia de que os negros caribenhos, americanos e brasileiros, por exemplo, não têm nada em comum.
“Esse filme me mostrou a conexão que temos como pessoas negras e a contribuição do Brasil nisso é enorme. É importante que a gente não sinta que há um estranhamento entre nós. Todos viemos do mesmo lugar”, disse a atriz.
Representatividade
Viola Davis é uma das atrizes mais versáteis do cinema, além de ser uma das mais premiadas. Ela possui a chamada “tríplice coroa da atuação”, com um Oscar, um Emmy Award e dois Tony Awards.
Viola navega bem tanto em filmes extremamente comerciais como “Esquadrão Suicida” (2016) como em longas de autor como “Um Limite Entre Nós” (2016), pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.
Porta-voz poderosa da representatividade negra no cinema, Viola fez questão de ressaltar que já está cansada de ver mulheres negras sendo renegadas a papéis sem importância.
“Somos sempre as advogadas e médicas sem nome, personagens que chegam ao fim da cena e dizem algo engraçadinho, mães que choram a morte do filho morto em tiroteio”, afirma ela, para depois ressaltar: “Podemos ser mais do que isso: somos complexas, temos sentimentos, beleza, precisamos ser humanizadas”.
Emocionada, Viola disse que, em dez anos atuando, nunca se sentiu tão representada em um papel.
“Interpretei muitas personagens teatrais, que já tinham sido, inclusive, interpretadas por mulheres brancas e sentia que não me encaixava direito no que significava ser mulher, ser feminina, ser bonita…”, diz ela. “Com esse filme, eu estou no meu mundo”.
Com “A Mulher Rei”, Viola Davis e Julius Tennon tentaram trazer a mulher negra para um lugar de valorização, de importância. Sempre muito firme nas entrevistas que dá, Viola Davis narra alguns episódios de racismo na indústria cinematográfica pelos quais passou. Nessa coletiva, ela contou mais um.
“Uma pessoa me disse, do nada, no meio de uma conversa: você sabe que você não é bonita, né?”, narrou Viola. “Eles podem dizer o que você é ou não é sem consequências, por isso estamos humanizando as pessoas negras nesse filme, valorizando-as.”
Viola e Julius esperam que as mulheres negras encontrem sua força de guerreira interior ao ver o longa e que tenham a certeza de que, sim, elas importam e Viola já sabe disso muito bem.
“Eu importo tanto quanto uma Meryl Streep, uma Julianne More. Não ligo se não sou loira, eu não ligo se não visto 36, eu ainda importo, ainda sou merecedora. E o que criamos no cinema tem que refletir tudo isso.”
Preparação para “A Mulher Rei”

Julius Tennon, entre risadas, admitiu ser um filhinho-da-mamãe e sempre ver as mulheres de sua família como guerreiras.
“Elas sempre estavam à frente das decisões da família, criando filhos sozinhas. São verdadeiras inspirações e isso que queremos suscitar em quem assiste ‘A Mulher Rei’”, diz ele.
Para Julius, o filme tem tudo: humor, emoção e, claro, se tratando de um épico, intensidade.
Apesar de possuir longas sequências de batalha, Viola diz que é reducionismo chamar o longa, simplesmente, de “filme de ação”. Ela prefere “drama histórico de ação”, mas reconhece que houve uma preparação física muito grande por parte dos atores para viver os personagens.
“Para interpretar a General Nanisca, tive que seguir um plano alimentar, além de treinar cinco horas por dia. Algumas espadas que eu usava eram leves, outras não. Cheguei a levantar uma de quase 10 quilos, com uma mão”.
Ela lamenta que, por exemplo, exista apenas um livro que conte a história das Agooji e que elas sejam conhecidas como “amazonas” – que, segundo Viola, se trata de termo colonialista. Depois de assistir diversos documentários, a atriz construiu sua personagem, Nanisca, da forma mais humanizada possível.
“Ela tem segredos, traumas, e apesar de ser uma guerreira, é uma mulher sensível e frágil”, diz.
Quando perguntada sobre o emprego do termo “king” (rei) ao invés de “queen” (rainha) no título do filme, ela cita, novamente, a questão da representatividade.
“No filme, eu sou um General, fiz por merecer”, diz. “Nós, mulheres negras, sempre somos ‘secundárias’ em tudo, então me ver em um pôster como ‘king’, subvertendo essa narrativa, é algo extremamente poderoso.”
Assista ao trailer de “A Mulher Rei”:
Por CNN Brasil
Foto: Sony Pictures






