A Embaixada dos Estados Unidos em Brasília classificou como “definitiva” e “surpreendente” a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de domingo (25). A avaliação consta em um relatório diplomático enviado na segunda-feira (26) a órgãos do governo americano, entre eles o Departamento de Estado.
Intitulado “Eleições no Brasil: Lula é eleito em resultado surpreendente, mas definitivo; Flávio Bolsonaro considera resultado impossível de aceitar”, o documento afirma que a votação ocorreu de maneira majoritariamente pacífica, apesar de problemas registrados em algumas regiões do país.
Segundo o relatório, observadores internacionais não manifestaram dúvidas sobre o resultado. A representação americana também destacou que a ampliação do horário de votação, principal argumento usado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) para contestar a derrota, não teve impacto significativo na apuração, conforme informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A avaliação contrasta com as declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que voltou a questionar o processo eleitoral brasileiro sem apresentar provas de irregularidades capazes de comprometer o resultado. Nesta quinta-feira (29), o republicano classificou a eleição como uma “vergonha”, embora tenha afirmado que pretende conversar com Lula.
Relatório aponta impacto limitado de votos após as 17h
O documento registra que Lula venceu Flávio Bolsonaro por uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos. Também menciona interrupções no transporte público e dificuldades de acesso a locais de votação no Nordeste e no Sul.
As campanhas dos dois candidatos solicitaram ao TSE a ampliação do horário de votação diante dos problemas. A medida foi autorizada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a extensão por duas horas após o encerramento previsto para as 17h.
Segundo o relatório, o TSE informou que apenas 34 mil votos foram registrados depois das 17h, incluindo os de eleitores que já estavam nas filas no horário previsto para o encerramento. O total representa cerca de 0,03% dos votos e não seria suficiente para alterar a diferença entre os candidatos.
A embaixada também citou a avaliação do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, de que a ampliação do horário não teve influência significativa no resultado nem modificou a vitória de Lula.
Sobre a atuação dos observadores internacionais, o documento afirma que as missões da Organização dos Estados Americanos (OEA) não tiveram “nenhuma dúvida sobre os resultados”. Apesar disso, consideraram insatisfatória a comunicação interna entre os responsáveis pela organização da votação. A decisão de estender o horário foi descrita como mal administrada, mas a eleição foi considerada organizada.
PL temia crise política com contestação de Flávio Bolsonaro
O relatório registra que Flávio Bolsonaro condenou a decisão do STF de ampliar o horário de votação e prometeu contestar o resultado, que classificou como “impossível de aceitar”.
A representação americana também relata que integrantes do PL manifestaram, reservadamente, preocupação com a possibilidade de a contestação provocar uma crise política. Segundo o documento, a avaliação levava em conta a diferença de votos, a ausência de fundamento jurídico para questionar o resultado e o risco de desgaste para o partido.
O texto menciona ainda que outros líderes conservadores reconheceram publicamente a vitória de Lula. Até a elaboração do relatório, o petista havia sido reconhecido por pelo menos 54 países, com exceções como Estados Unidos, El Salvador e Argentina.
Trump evita reconhecer vitória de Lula
A avaliação da embaixada contrasta com as declarações públicas de Trump. Na segunda-feira (26), o presidente americano afirmou que a eleição brasileira parecia ter sido fraudada e questionou a ampliação do horário de votação.
“A impressão que passou para o mundo foi terrível. Eleições precisam ser indiscutíveis”, declarou na ocasião.
Nesta quinta-feira (29), Trump voltou a criticar o pleito ao ser questionado sobre a possibilidade de conversar com Lula e parabenizá-lo pela reeleição. “Vou falar com ele, mas acho que a eleição no Brasil foi uma vergonha”, afirmou.
Questionado sobre quem considerava o vencedor legítimo, o republicano evitou responder. “Não quero comentar, mas achei que a eleição foi um grande constrangimento para o povo brasileiro. O atual presidente me pediu para não tomar partido, e eu não tomei. Mas, quando vi o que aconteceu no Brasil, achei uma vergonha”, disse.
Até esta quinta-feira, o governo americano ainda não havia enviado uma mensagem formal de congratulações a Lula. Trump também não respondeu diretamente se reconhece o petista como vencedor legítimo da disputa.
A indefinição ocorre enquanto Flávio Bolsonaro está nos Estados Unidos. O senador desembarcou em Miami na quarta-feira (28), depois de deixar o Brasil após a derrota eleitoral. O Departamento de Estado confirmou a concessão de vistos para ele e seus familiares.
Foto: Ricardo Stuckert
Por: Metro1






