A endometriose é uma das doenças ginecológicas mais comuns e, ao mesmo tempo, uma das mais subdiagnosticadas entre as mulheres. Estima-se que cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo convivam com a doença, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, isso representa aproximadamente 7 milhões de mulheres. Mesmo assim, o diagnóstico ainda costuma levar anos para acontecer.
A condição ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste o interior do útero, cresce fora dele. Esse tecido pode se implantar em órgãos como ovários, trompas, intestino, bexiga e até na região pélvica mais profunda. A cada ciclo menstrual, ele também responde aos hormônios, inflama, sangra e provoca dor intensa e processos inflamatórios crônicos.
Por muito tempo, a dor associada à menstruação foi naturalizada como algo “normal” na vida das mulheres. Essa visão cultural contribuiu para que milhares de pacientes passassem anos convivendo com sofrimento físico e emocional antes de receber um diagnóstico adequado.
Dor incapacitante e impacto na vida das mulheres
Um dos sintomas mais marcantes da endometriose é a dor pélvica crônica, que pode aparecer durante o período menstrual, nas relações sexuais, ao evacuar ou urinar, e até de forma contínua ao longo do mês.
A intensidade dessa dor pode ser tão forte que interfere diretamente na rotina e na capacidade de trabalho das pacientes. Estudos publicados em revistas médicas internacionais indicam que até 60% das mulheres com endometriose relatam perda significativa de produtividade, faltas frequentes ao trabalho ou redução da capacidade de concentração devido à dor.
Uma pesquisa internacional publicada pela revista científica Human Reproduction mostrou que mulheres com endometriose perdem, em média, cerca de 11 horas de produtividade por semana por causa dos sintomas. Isso inclui tanto faltas ao trabalho quanto o chamado “presenteísmo”, quando a pessoa está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas funções por causa da dor.
Além da dor intensa, a doença também pode provocar:
- cólicas menstruais incapacitantes
- dor durante relações sexuais
- dor ao evacuar ou urinar durante a menstruação
- distensão abdominal
- fadiga intensa
- dificuldade para engravidar
A infertilidade, inclusive, é uma das consequências possíveis da endometriose. Estima-se que 30% a 50% das mulheres com dificuldade para engravidar tenham a doença.
Uma doença historicamente invisibilizada
Durante décadas, a dor relatada por mulheres com endometriose foi frequentemente minimizada ou interpretada como exagero, ansiedade ou sensibilidade emocional. Esse histórico de invisibilização contribuiu para atrasos diagnósticos que podem chegar a sete a dez anos entre o início dos sintomas e a confirmação da doença.
Hoje, especialistas reforçam que dor menstrual incapacitante não é normal e precisa ser investigada.
O diagnóstico e o tratamento da endometriose devem ser conduzidos por um ginecologista, responsável pela avaliação clínica, exames de imagem e definição da estratégia terapêutica, que pode incluir medicamentos hormonais ou cirurgia em casos mais avançados.
O papel do especialista em dor
Embora o tratamento da doença seja conduzido pelo ginecologista, o controle da dor crônica pode contar com o acompanhamento de um médico especialista em dor.
De acordo com o médico anestesiologista com foco em dor, Diego Argolo, a endometriose é uma condição que frequentemente evolui para um quadro de dor persistente e que exige abordagem multidisciplinar.
Segundo ele, quando a dor se torna crônica, o sistema nervoso pode passar a responder de forma amplificada aos estímulos, o que faz com que o sofrimento persista mesmo fora do período menstrual.
“O tratamento da endometriose deve ser conduzido pelo ginecologista, que é o especialista responsável pela doença.
Mas, quando a dor se torna persistente ou incapacitante, o acompanhamento com um médico especialista em dor pode ajudar a melhorar a qualidade de vida da paciente, com estratégias específicas para controle da dor crônica”, explica.
Entre as abordagens utilizadas estão medicamentos específicos para dor neuropática, técnicas intervencionistas, reabilitação física e estratégias multidisciplinares que envolvem também fisioterapia e saúde mental.
Um problema de saúde pública
Por afetar milhões de mulheres em idade produtiva, a endometriose já é considerada por especialistas um problema de saúde pública global. Além do sofrimento físico, a doença gera impactos econômicos importantes devido às faltas ao trabalho, afastamentos e perda de produtividade.
No mês dedicado à saúde e aos direitos das mulheres, especialistas reforçam a importância de ouvir a dor feminina com seriedade.
Afinal, por muito tempo, a endometriose foi tratada como exagero. Hoje, a medicina sabe que se trata de uma doença complexa, inflamatória e potencialmente incapacitante. Reconhecer os sintomas e buscar diagnóstico precoce pode fazer toda a diferença na qualidade de vida das mulheres.






